Não devo explicações a ninguém, até porque o faço quase todos os dias cá em casa, na esperança de criar um homem de mentalidade aberta e de refrescar a memória de dois adultos, sendo um deles eu própria.
Eu trabalho em casa. E quando digo que trabalho, é porque trabalho. Começo cedo e acabo muito tarde, todos os dias, mesmo aos fins-de-semana e ditas férias. Não me queixo porque gosto mesmo muito do que faço. Faço-o por opção. Por vocação.
Quando torcem o nariz e riem para dentro porque acham que o que faço é um entretém de quem não sabe o que fazer, o meu estômago dá um nó. E, por curioso que seja, essas críticas mudas saem de quem me é mais próximo.
É verdade que não enfrento a IC19 todos os dias, uma vez para cá e outra para lá. É verdade.
É verdade que não preciso tirar o pijama para ir para o trabalho. É verdade.
É verdade que não tenho que aturar colegas nem chefias mal-dispostas. É verdade.
E isso é assim porque todos os dias escolho lutar pela vida que quero ter.
Enquanto estão na IC19, eu já estou a trabalhar.
Quando vão tomar o primeiro café, eu estou a trabalhar.
Quando vão ver os mails e os blogs do dia, eu estou a trabalhar.
Quando pensam que não podem mais, eu penso que não posso mais.
Quando vão almoçar, eu vou almoçar.
Quando voltam ao trabalho, eu já estou a trabalhar.
Quando tomam mais um café, eu ainda estou a trabalhar.
Quando lêem mais uns mails, eu leio uns mails.
Quando finalmente voltam à IC19, eu estou a trabalhar.
Quando chegam a casa, o pessoal cá de casa chega e eu vou trabalhar noutro departamento.
Quando se vão deitar, eu continuo a trabalhar.
E se tenho a sorte (dizem por aí) de poder teimar nesta coisa de ser artesã é porque estou casada com alguém que faz todas essas etapas acima descritas e que paga as contas ao fim do mês.
Porque o que eu ganho, não chega nem para comer. Por enquanto. Porque se teimo em trabalhar tantas horas todos os dias, curvada em frente à máquina de costura é porque tenho muita vontade de um dia conseguir pagar as minhas contas e mostrar ao meu filho que podemos ser tudo o que sentimos necessidade de ser.
Apesar de estar sempre a costurar, o meu tempo quase-livre é preenchido a assegurar que esta família vive num lar decente e que é saudável e feliz q.b.
E por ser mulher e trabalhar em casa sou logo catalogada de dona-de-casa.
Explicar aos senhores dos inquéritos que querem muito saber a minha profissão que ser mulher e trabalhar em casa não implica que passe o dia a limpar o pó (garanto que não o faço - ele vai desaparecendo) é luta quase perdida. Se fosse homem não era preciso explicação alguma porque simplesmente não me catalogavam de dono-de-casa.
E para que não me alongue mais nesta questão, deixo-vos um
texto de um artesão a sério, homem, cujo estômago deve estar tão cansado quanto o meu.
E desculpem qualquer coisinha.