Mostrar mensagens com a etiqueta trabalhar em casa. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta trabalhar em casa. Mostrar todas as mensagens

trabalhar em casa

bastidores : backstage bastidores : backstage

Descobri que aquele balde vermelho onde guardo pequenos e infinitos pedaços de tecido que vão sobrando dos trabalhos é o melhor brinquedo do momento. Os retalhos não precisam ser transformados em nada para despertar o interesse dela - cada um, diferente do outro, é uma descoberta. É o poder da cor, dos padrões, do toque e da curiosidade - como eu a percebo!

Maria, podes continuar a brincar que a mãe continua a trabalhar, sim?

working at home mum

carimbar

carimbar

working at home mum

É assim que se trabalha cá em casa. E na vossa?

Lost in Living




Eu não falo mais sobre isto, aqui no blog e fora dele, porque não me parece um tema interessante para a maioria das pessoas (dentro e fora de blogs). Quem quer saber se tenho ou não tempo para o meu trabalho? ( "Qual trabalho? Fazer bonecos?" )

A minha avó dizia que certas mulheres não deviam constituir família. E ela, que adorava a família que constituiu, sabia muito bem o que dizia. Ela sabia que tinha ficado para trás, que não chegava nem a metade daquilo que era suposto ser e que, no fundo, ninguém a conhecia. Ela era grande, enorme, não cabia dentro de si. Mas teve filhos, teve marido, teve noites em que costurava e embalava choros de criança, teve que dizer não a muita coisa que só queria dizer sim. Viveu a vida dentro do mundo que construiu, um mundo à sua imagem, amplo o suficiente para que não asfixiasse. Aquilo que conseguiu fazer foi muito, mas muito pouco para o tamanho da sua alma.

Há dias em que me sinto tão grande dentro de mim que quero sair, preciso sair, tenho de sair. Que se tivesse que assinar o meu nome ele teria metros de altura. E é dessa necessidade (de criar) que falo quando me queixo da falta de tempo. É uma questão de vida ou morte -  a da alma! Não é uma vontade de fazer umas costurazinhas; é uma necessidade de ultrapassar, de aprender, de pôr em prática, de conquistar, de construir! A máquina de costura é apenas uma ferramenta, ela não é importante. É o trabalhar as ideias e transformá-las, ver uma ideia ganhar corpo, sentir-me pequena perante uma criação da qual fui meramente participante, esvaziar esta bolha gigante que vai sufocando por dentro até rebentar. Não sei bem como me fazer entender mas tenho a certeza que há muitas mulheres que sentem o mesmo por aí.

Se o meu trabalho reflecte isto? Não. Os bonecos que tenho em mente ainda não foram feitos e não sei quando terei tempo para os fazer. Mas os que faço vão-me ensinando a chegar lá um dia. Pelo menos assim o espero. Mesmo que mais ninguém se interesse. E fazer estes bonecos faz-me bem - não sei se à cabeça, ao coração, à alma ou a tudo que sou -, faz-me verdadeiramente feliz e satisfeita. A bolha gigantesca acalma-se e dá-me uma palmadinha nas costas. Sorrimos as duas.

Mas se tenho dois filhos é porque decidi ter dois filhos e mesmo que me roubem todo o tempo que de outra forma teria para trabalhar, estes dois filhos não podem ser responsáveis pela minha frustação. Mesmo que me sinta a rebentar eu tenho que respirar fundo e sentir-me grata pela sorte que é ter dois filhos como os meus. Basta olhar para as suas caras, os seus sorrisos tão puros e pensar que a vida é um mistério, que não sei quanto tempo por cá andarei, pior ainda - pesadelo dos pesadelos - quanto tempo eles por cá andarão, que essa ansiedade se vai acalmando, pelo menos por mais um dia, porque a minha vida já não é só minha.

Os dias são inglórios? Sim. São passados em pijama? Sim. Estou de bolsos vazios? Sim. Mas por agora, pelo que sei e pelo que já vivi, não troco esta forma de vida por nenhuma outra.

Estou a crescer.

despojos do dia

"A mulher é a casa", dizia Mia Couto - observação bela e profunda de quem admira as mulheres.
A mulher é a casa. A mulher é a casa do filho, é a casa da família, é a casa dela, acaba por ser a casa da história de qualquer um.
Mas há dias, e eu não sei se Mia Couto sabe disto, em que a mulher se transforma na casa, desaparecendo nela. E por mais anos que passem e experiências que fiquem, a mulher acaba por se deixar desaparecer na casa, na família, na história uma e outra vez.
Trabalhe ela fora ou dentro, a mulher desaparece e passa a ser parte da casa.
Há dias em que não me importo, há dias em que me custa um pouco e há dias em que me custa muito.
Depois da roupa passada a ferro, do almoço feito e da louça já suja outra vez fui-me deitar para, com alguma sorte, dormitar uns minutos. Quando voltei à sala, o cesto da roupa que tinha vencido já lá estava outra vez, com nova roupa para passar. Pareceu-me que se ria de mim. Eu não lhe achei graça e desejei-lhe a morte.

sobre trabalhar em casa

Não devo explicações a ninguém, até porque o faço quase todos os dias cá em casa, na esperança de criar um homem de mentalidade aberta e de refrescar a memória de dois adultos, sendo um deles eu própria.


Eu trabalho em casa. E quando digo que trabalho, é porque trabalho. Começo cedo e acabo muito tarde, todos os dias, mesmo aos fins-de-semana e ditas férias. Não me queixo porque gosto mesmo muito do que faço. Faço-o por opção. Por vocação.


Quando torcem o nariz e riem para dentro porque acham que o que faço é um entretém de quem não sabe o que fazer, o meu estômago dá um nó. E, por curioso que seja, essas críticas mudas saem de quem me é mais próximo.


É verdade que não enfrento a IC19 todos os dias, uma vez para cá e outra para lá. É verdade.

É verdade que não preciso tirar o pijama para ir para o trabalho. É verdade.

É verdade que não tenho que aturar colegas nem chefias mal-dispostas. É verdade.


E isso é assim porque todos os dias escolho lutar pela vida que quero ter.


Enquanto estão na IC19, eu já estou a trabalhar.

Quando vão tomar o primeiro café, eu estou a trabalhar.

Quando vão ver os mails e os blogs do dia, eu estou a trabalhar.

Quando pensam que não podem mais, eu penso que não posso mais.

Quando vão almoçar, eu vou almoçar.

Quando voltam ao trabalho, eu já estou a trabalhar.

Quando tomam mais um café, eu ainda estou a trabalhar.

Quando lêem mais uns mails, eu leio uns mails.

Quando finalmente voltam à IC19, eu estou a trabalhar.

Quando chegam a casa, o pessoal cá de casa chega e eu vou trabalhar noutro departamento.

Quando se vão deitar, eu continuo a trabalhar.


E se tenho a sorte (dizem por aí) de poder teimar nesta coisa de ser artesã é porque estou casada com alguém que faz todas essas etapas acima descritas e que paga as contas ao fim do mês.

Porque o que eu ganho, não chega nem para comer. Por enquanto. Porque se teimo em trabalhar tantas horas todos os dias, curvada em frente à máquina de costura é porque tenho muita vontade de um dia conseguir pagar as minhas contas e mostrar ao meu filho que podemos ser tudo o que sentimos necessidade de ser.


Apesar de estar sempre a costurar, o meu tempo quase-livre é preenchido a assegurar que esta família vive num lar decente e que é saudável e feliz q.b.


E por ser mulher e trabalhar em casa sou logo catalogada de dona-de-casa.

Explicar aos senhores dos inquéritos que querem muito saber a minha profissão que ser mulher e trabalhar em casa não implica que passe o dia a limpar o pó (garanto que não o faço - ele vai desaparecendo) é luta quase perdida. Se fosse homem não era preciso explicação alguma porque simplesmente não me catalogavam de dono-de-casa.

E para que não me alongue mais nesta questão, deixo-vos um texto de um artesão a sério, homem, cujo estômago deve estar tão cansado quanto o meu.



E desculpem qualquer coisinha.


pausa



Estou sentada à máquina de costura à tantos dias que ontem pensei que já era sexta-feira. Fiz tudo como se assim fosse. Só ao fim do dia é que me avisaram que ainda era quinta. Procurei os óculos por todo o lado, não os encontrei. Ainda bem que agora tenho um par a mais, pensei. Quando reparei, andava na rua com uns óculos na cara e outros pendurados na camisa. Praguejei que me fartei, louca à procura das chaves. Estavam o tempo todo na minha mão.
A manta ainda não está pronta, apesar de trabalhar nela o dia inteiro, nos últimos dias (a semana toda). Desmanchei todo o pesponto que tinha feito porque não estava contente com o efeito. Fui buscar a máquina de costura da minha mãe na esperança que fosse um pouco mais potente que a minha e foi o que me salvou. Afinal era a máquina, não era eu.
Agora estou a dar largas à criatividade (contida q.b.), acolchoando as três camadas de tecido, formando o verdadeiro quilt.
Só quem se dedica ao mesmo que eu, percebe o trabalho que tudo isto dá, o cansaço que temos que ultrapassar se queremos ver as coisas terminadas e a verdadeira loucura de, no final, ter de inventar um preço para algo que nos custou semanas de trabalho intensivo, já não falando nos custos de material.
Só pode ser por paixão, verdadeira necessidade criativa que mulheres e homens se dedicam a artes manuais, dando tanto de si e muitas vezes, recebendo tão pouco em troca.
E se não estou enganada, hoje é mesmo sexta-feira, véspera de um fim-de-semana que promete ser agitado e muito alegre.
Vou dar uma pausa a mim mesma.
Façam o mesmo.

des frutar





São duas horas e trinta e três minutos da manhã. O M. dorme, mais calmo. A Primavera prega-lhe sempre umas partidas de mau gosto e não há como fugir ao pólen que anda no ar. As férias da Páscoa passam-se assim em casa, e ele não se importa nada.
O blog tem andado um pouco repetitivo. A julgar pelas fotografias parece que ando a sair pouco de casa. E é verdade. Quando o local de trabalho é em casa, a vida lá fora passa-nos um pouco ao lado. E isso não é necessariamente mau.
Ainda agora, ao tentar organizar um pouco os ficheiros de fotografias, fui-me dando conta de como a minha vida mudou neste último ano. Todas as pequenas peças aparentemente sem nexo foram encaixando numa peça só, e aquilo que em mim pareciam sonhos e ideias abstractas eram afinal imagens de mim, partes de mim que procuravam a todo o custo chegar à minha consciência.
Cada vez mais me apercebo que todos os dias somos bombardeados por pequenas grandes mensagens interiores. Reclames interiores. Uma atrás da outra, ao longo de um dia, o nosso subconsciente vai enviando mensagens que acabam por ficar por ali, num meio termo, num lugar neutro, num limbo à espera de descodificação. E com o tempo, com muito silêncio, com muitas noites à máquina de costura, vamos aprendendo a ouvir essas desesperadas mensagens que mandamos a nós próprios.
E assim, olhando as centenas de fotografias tiradas neste último ano, percebo a mudança que começou a acontecer em mim desde que parei de tentar ser a pessoa que acreditava que devia ser. Inevitavelmente, sempre com a sensação de não pertencer, de não conseguir, de não prestar. E assim sempre será, enquanto um ser vivo tentar se passar por outro.
Pergunto-me se os outros animais passarão pelo mesmo, já que é tão comum entre nós.
No ano passado, por esta altura, iniciava um novo ciclo. Para mim e para a minha pequena família. Porque connosco arrastamos sempre aqueles com quem partilhamos os dias, seja para cima, seja para baixo. E a responsabilidade de nos ouvirmos a nós próprios torna-se ainda maior quando temos por perto um ser maravilhoso ávido por aprender que nos tem como modelo para a vida.
E não foi num ano que consegui chegar à verdade de mim - tenho trinta e dois anos para desaprender. A minha luta continua: recuperar aquilo que me foi retirado e devolvê-lo a quem mais amo.
Boa Páscoa

bonecos de pano, tempo e respeito


Este tempo faz-me lembrar os dias cinzentos da Holanda, pequeníssimos, escuros, solitários. Mas porque já passei muitos desses dias, recuso-me a ceder. Lembro a mim mesma que tudo vai passar e que a minha alma nada tem que se deixar influenciar. Apetecia-me ter ido escalar uma montanha ou correr atrás do meu filho pela praia, ofegante, prometendo-me fazê-lo mais vezes, esquecendo a promessa logo que chegasse a casa.
Mas o domingo foi passado em casa, de pijama, no meio de plasticinas e quebra-cabeças, o passatempo preferido dos dois homens cá de casa, que passam a semana fora. Mas a mim, que tenho uma das mais necessárias e mais impopulares de todas as ocupações destes tempos, que passo a semana em casa no meio de roupa para lavar, para secar, para passar, de almoços e jantares, de viagens de ida e volta casa-escola-casa-escola, de linhas que gostam de se espalhar pela casa toda, de bonecos que vão nascendo das minhas mãos ainda como milagre, a mim apetecia mesmo ir lá para fora. Mas diz que vai melhorar. E eu acredito sempre.
Já a segunda-feira começou da melhor maneira possível. Consegui que os primeiros raios de sol da manhã colaborassem comigo de modo a fotografar os recém-nascidos e logo que ligo o computador recebo um prémio! Um prémio! E não foi um qualquer: o prémio Blog de Ouro, Mulher Diferente. E o melhor de tudo, a cereja no topo do bolo, recebi-o das mãos de alguém que admiro - a Pequete, mãe-bióloga-ilustradora que participa no Pés na Relva, blog sobre famílias que praticam o ensino doméstico em Portugal, o qual eu tinha a certeza absoluta que com o tempo começaria a dar frutos.
Agora compete-me atribuir o prémio a seis outros blogs. Tarefa que me diverte, devo dizer, e que vou saborear ao longo do dia.


Assim, já estou mais feliz.