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a história à volta do teu nome

as mulheres da casa

Nunca teria ficado em paz com a vida se não tivesse dado a oportunidade a mim mesma de passar por um segundo parto. O primeiro foi tão traumático que levei quase 10 anos para acreditar que desta vez seria diferente. E foi. Com as pessoas certas tudo pode acontecer - mesmo numa cesariana.
Eu tremia descontroladamente. Era puro medo. Admito: não sou a pessoa mais corajosa em ambientes hospitalares. A sala de parto é fria, estéril, metálica. Os procedimentos são mecânicos, rápidos - a mulher ali deitada é a matéria prima, é um corpo a ser trabalhado, pouco mais.
Mas desta vez eu estava presente, não levei anestesia geral, e presente estava também o pai, que afinal também merece e deve fazer parte do fim deste grande ciclo que é o parto. A obstetra que acompanhou toda a gravidez, para além de grande profissional, mostrou ser não só humana mas também mãe e naqueles minutos uma pessoa precisa de uma mãe.
Mesmo confiando naquela equipa que ali se encontrava, o medo não me largava. Eu tremia. Eu chorava. Eu rezava. Sim, dei por mim a rezar - uma reza só minha. Dei por mim a procurar algo sagrado a que me agarrar para suportar aqueles minutos infinitos - e foi o M. que veio ter comigo, a cantar a nossa música de sempre, a música que cantamos todas as noites desde que nasceu: o Alecrim. Era como se estivesse ali a meu lado, a cantar para a irmã, como tantas vezes fez durante a gravidez.
E assim cantei, como um mantra, vezes sem conta do princípio ao fim o Alecrim enquanto era cortada e cosida, enquanto nascias e te encostavam a mim, no meio de muitas lágrimas e risos, acompanhada e feliz por tudo ter chegado ao fim, a um fim feliz.

O teu irmão sempre disse que teria uma irmã chamada Maria e nunca abandonou essa certeza. A tua mãe preferiu esperar até te ver. E assim nasceste, Maria Alecrim.





Alecrim alecrim aos molhos
por causa de ti
choram os meus olhos
ai meu amor
quem te disse a ti
que a flor do monte
era o alecrim

Alecrim alecrim doirado
que nasce no monte
sem ser semeado
ai meu amor
quem te disse a ti
que a flor do monte
era o alecrim

a vida não se muda sozinha

A felicidade é o estado natural da alma. Ninguém nasce triste. Quando nascemos a alma parece-me bem, completa, de ciclo fechado. Aquela paz que um recém-nascido transmite é a de uma alma feliz, satisfeita.
A felicidade é a saúde da alma. Quando nascemos a alma parece leve, parece não precisar de nada (ao contrário do corpo, que depende totalmente dos outros) - ao recém-nascido basta-lhe ser.

À medida que nos vamos abrindo para o mundo (e nos vamos afastando de nós próprios) vamos fazendo escolhas e iniciando caminhos. Ninguém escolherá o mesmo caminho - o meio é diferente, os estímulos são diferentes, as circunstâncias são diferentes: a sua história será sempre única. É essa história que vamos construindo que nos empurra em direção a uma outra, e a outra, e a outra história. Haverão pessoas com caminhos idênticos, mas nunca iguais, sempre individuais.

Chega uma altura em que já temos história suficiente para olharmos para o que passou e reflectir. Chega uma altura em que vamos avaliar o que temos feito, o que andamos a fazer e o que queremos fazer. Vamos olhar para dentro. Quanto mais nos tivermos afastado da nossa verdadeira identidade, mais alto ela vai gritar dentro de nós. Ela vai reclamar aquilo que lhe é devido, aquilo que lhe tem sido retirado. A tristeza, o desconforto, o desalento são marcas visíveis da falta de saúde da alma - muitas vezes até a sentimos morta. Mas morta ela não está e se a sentimos sofrer é porque é urgente ouvi-la.

Ninguém pode receitar a felicidade a ninguém - cada um terá que saber por si próprio o que ela é para si. E não é difícil.
Muitas vezes sentia-me perdida, sentia que não estava a caminhar no sentido que devia. E sempre que me sentia assim, parava, ouvia, sofria e aguardava - se não sabia por onde ir, o melhor era aguardar. Nessas alturas imaginava-me no meio de quatro caminhos. Parava, sentava-me precisamente no meio deles e imaginava-me ali à espera. Atentamente à espera. Isto aconteceu muitas vezes.

Nessa altura, tudo na minha vida me parecia estar mal - o trabalho, o casamento, o meu dia-a-dia - tudo estava fora do sítio: eu estava fora do sítio - eu estava fora de mim. Muitas vezes procurei-me nos lugares errados, repeti os mesmos cenários. Até perceber que andava às voltas, regressando sempre ao mesmo lugar. Nesse lugar existiam sonhos, necessidades, medos, certezas. Nesse lugar estava a minha alma. Foram necessárias muitas voltas, muitas ilusões e desilusões para começar a dar ouvidos a esse lugar.

Quando, dentro do turbilhão, não conseguimos perceber o que queremos, devemos tentar prestar atenção àquilo que não queremos. O saber exactamente aquilo que não queremos pode levar-nos àquilo que mais queremos. "Quero isto?" - "não". "Então vou por ali."

Escutar a nossa voz, seja ela interior ou física, é um meio eficaz. Muitas vezes repetimos em voz alta as nossas verdades para os outros as ouvirem mas esquecemos de as ouvir também.
Eu, por exemplo, tive em tempos uma colega de trabalho muito fútil e trabalhar com ela era para mim um verdadeiro tormento. E eu repetia "não aguento mais, não aguento mais". Imaginava-me a sair pela porta fora e nunca mais voltar - nesse pequeno momento a minha alma libertava-se um pouco, talvez, mas a realidade não mudava. O meu corpo continuava lá, a ouvir a tal colega. A minha voz cá dentro gritava e eu mandava-a calar. Fechava-a, no escuro, sozinha. Ao fim do dia, saía, aliviada, ia buscar o meu filho, seguia para casa, e o dia já tinha acabado sem eu ter visto um raio de sol. Poucas horas depois, tudo se repetia, por mais um dia.

A certa altura, nesse mesmo emprego, encontrei uma mulher a quem deixei escapar o meu sofrimento por trabalhar num lugar que me fazia sentir morta e ela, percebendo tudo, disse-me algo que nunca esqueci: " é uma questão de amor-próprio". E era. Mas levei algum tempo a perceber o que isso queria dizer. "Amor-próprio" não fazia parte do meu dia-a-dia naquela altura. Se o tivesse, não faria aquilo a mim mesma.

Alguns anos depois, já noutro emprego inadequado para mim, veio o desemprego. Caiu na minha vida como um meteorito, quando menos esperava. Agarrando em mim pelos braços, abanou certezas e deitou fora planos de vida que até aí eu achava estarem certos. Mas a verdade é que tudo o que caiu para fora de mim era lixo e só depois do desespero veio a paz.

o rei vai nu

" (...) - Pronto - redarguiu o rei. - Que tal o fato novo? Fica bem?
E virou-se mais uma vez defronte do espelho, principalmente para fingir que dava os últimos retoques no conjunto.
Os camareiros, que deviam segurar o régio manto, levaram as mãos ao chão, como para apanhar a ponta e levantá-la. E seguiram de braços erguidos, pois não queriam dar a entender que não estavam a ver nada.
Assim desfilou o cortejo, com o rei debaixo do pálio, e toda a gente a dizer, nas ruas e nas janelas:
- Que lindo fato novo leva o nosso rei! Que esplêndida cauda, como faz belo efeito!
Ninguém, é claro, desejava confessar que não via esse traje tão gabado, visto que, de outro modo, se provaria falta de inteligência ou incapacidade para desempenhar as funções respectivas. Nenhum dos fatos anteriores do rei obtivera tamanho êxito.
Ouviu-se então uma criança exclamar inocentemente:
- Mamã, o rei vai nu!
Foi altura de todos murmurarem aos ouvidos do vizinho que a criança decerto tinha razão.
- Vai nu... vai nu...
O rei sentiu um arrepio, pois não ignorava que diziam a verdade. Mas, como monarca, achava que devia prosseguir até ao fim e tomou uma atitude ainda mais majestosa. Os camareiros seguiam-no solenemente, erguendo o manto, embora soubessem que não existia peça nenhuma daquele traje tão famoso."

in Contos de Andersen II, Relógio d'Água


(... onde é que eu já vi isto?)

pinhões

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pinhões no prato da bisavó

Parece-me cada vez mais difícil encontrar pinhões.
Quando era criança, o meu bisavô levava-me a mim e a todas as crianças da praceta à caça de pinhões. Éramos um bom grupo. E caminhávamos bem. Naquele tempo, os prédios eram raros, haviam tanques de pedra enormes no meio do campo cheios de água límpida onde as pessoas se iam abastecer, como ainda fazem em Sintra, logo ali ao lado.
A rua era vivida como uma segunda casa. Levávamos brinquedos, colchões, comida - só voltávamos a casa quando as mães (e avós) apareciam à janela a chamar para o jantar.
Por ali haviam também casas senhoriais abandonadas que visitávamos regularmente. Em grupo, sempre em grupo. Era o verdadeiro sentido de aventura e mistério, que o meu bisavô sabia conduzir como ninguém. Tenho a certeza que se divertia tanto quanto nós. As casas eram enormes, com jardins lindíssimos, pomares e hortas, lagos e fontes - tudo ao abandono, de porta aberta, salas e quartos e cozinhas a adivinhar. Parecia-me sempre que alguém ainda por lá vivia, que saía pela porta não tardava nada. Mas eu estava com o meu avô, estava segura.
Era lá o nosso sítio preferido para apanhar pinhões. Eram tantos, espalhados pelo chão de mármore. Era um encher de sacos, entre um e outro susto ora pregado pela própria casa, ora por um de nós. Eram o medo e o perigo que nos faziam sair dali de barriga cheia, cheia de aventura e de risco, coisa que não sei se as crianças de hoje sabem o que é.
Voltávamos também de sacos cheios de pinhões, que depois do almoço nos entretínhamos a descascar à pedrada ou à martelada, na rua ou em casa.

pinhões

pinhões

Já que o preço do pinhão está exorbitante e o seu sabor deixa muito a desejar, temos andado à caça dele por perto de casa. O calor vai abrindo as pinhas e nós agradecemos. E embora não se consigam encher sacos, vamos entrando pinhais de coqueluche adentro, procurando por entre a caruma, e mais tarde em casa pegamos numa pedra e descobrimos o homem-das-cavernas em nós adormecido e damos à mãe para provar. E a mãe gosta muito.

do antigo se faz novo

colares

colar


Uma vida inteira acumula muita coisa. Ainda para mais quando não se gosta de deitar fora e se vê possibilidades em todos os objectos que por nós passam. Assim é a minha avó, assim é a minha mãe, assim sou eu. E não fosse eu caracol de casa às costas, não me tinha desfeito de muita coisa entre uma mudança e outra.
Há dias em que preciso deitar coisas fora que não estão a uso há anos - preciso dessa limpeza, dessa organização, de fazer espaço para o novo. Outros há em que me arrependo de o ter feito, quando acabo finalmente por encontrar o fim perfeito para aquela peça. Ás vezes é tarde demais, outras ainda vou a tempo. E é uma alegria enorme encontrar uso para algo que tinha caído em desuso. Nessas alturas sinto a criatividade no seu pico mais alto.
Deve ser assim que a mãe do meu pai e a minha mãe se sentem também. São as pessoas mais criativas que conheço. Cada uma à sua maneira. A criatividade é a alegria da inteligência.
Pensando bem não é de há uns anos que recolho coisas. Acho que sempre o fiz. Ainda não sei bem porque o faço e porque me dá tanto prazer fazê-lo.
Estas missangas vêm do tempo em que os meus avós regressaram do Brasil e abriram uma retrosaria na baixa de Lisboa - a Casa Albuquerque. Coincidência feliz porque apesar de esse ser o seu apelido, o nome já lá estava, do anterior dono. Tenho a certeza que pouca gente na minha família conhece a história. Eu, que tento passar tempo de qualidade com a mais velha da família, costurando, aprendendo, ouvindo as histórias da sua vida que lhe vão passando pela memória vindas de lugares já meio esquecidos, vou absorvendo tudo. E mesmo não escrevendo o que ouço porque sou demasiado desorganizada para isso, tenho a certeza que guardo tudo bem guardado - as histórias e os objectos.
Talvez um dia as histórias apareçam em papel.

missangas de vidro

colar de missangas

colar de missangas

colar de missangas

Em casa da minha avó, as mãos estavam sempre ocupadas. Os dias eram grandes, o tempo chegava para tudo. A máquina de costura sempre pronta a concertar uma peça de roupa, o crochet nas mãos da bisavó já quase cega, o bisavô que fazia crescer alfaces e morangos ali mesmo no terraço e que eu ia oferecer às vizinhas - uma alface era tão bonita quanto um ramo de flores.
As missangas também costumavam estar presentes. Gostava de as ir comprar à baixa com os meus avós. De comboio, viagem longa e excitante, depois a pé pelas pequenas ruas e becos de Lisboa. Na casa que as vendia, pequenina, as missangas eram contadas de cinco em cinco. E eu queria ser capaz de o fazer tão bem como a filha do dono. Tantas cores, tanto brilho, tudo empacotado em papel pardo. De volta ao comboio. De cabeça fora da janela até o revisor chegar.

a história da árvore

Quando viemos ver esta casa pela primeira vez, sentei-me e olhei pela janela. Era uma árvore linda, frondosa. As folhas brilhavam ao sol, cintilantes, cada uma independente da outra. Ouviam-se as folhas ao vento. Aceitei ficar com a casa por causa daquela árvore. Lembrou-me uma outra com que tinha sonhado.
Estava eu deitada em cima de uma mesa, morta, lá fora ouvia os cascos de cavalos na calçada, que me esperavam. Eu abri os olhos, estava sozinha na sala. Olhei em frente, por uma janela sem vidro, era uma casa pobre. E lá fora estava uma árvore. Linda, frondosa. As suas folhas balançavam com a brisa suave e quente e eu senti-me em paz.
Quando a vi, nesta casa, pensei que era aqui que deveria morar e talvez ficar até morrer, como no sonho.
Há uns meses passou por aqui um temporal. O vento foi tanto que a partiu ao meio. Vieram os bombeiros de madrugada retirar o que caiu do meio da estrada. Chamei-a de vitoriosa. Porque apesar de tudo se tinha aguentado em pé. Como as árvores fazem. Morrem de pé.
O Miguel chorou pela árvore e eu também. Os galhos ficaram cinzentos para sempre, até hoje.
Hoje olhámos pela janela e estavam a cortar-lhe os galhos. O Miguel ficou a olhar, preocupado. Quando o fui levar à escola disse-me que quando voltasse queria saber o que lhe tinham feito na sua ausência.
E agora estão lá. A cortar a árvore toda. O barulho da serra ensurdecedora.
Já está. Tombada. A árvore que me trouxe aqui e que ia ficar comigo até à morte.
E o Miguel que está a chegar.

back in the days



Lembro-me tão bem deste momento - a sala, os avós, a minha prima pequenina, a troca de prendas.
Ao procurar fotografias antigas minhas descobri um sorriso puro de criança feliz, autêntico, como só uma criança tem. Os meus cabelos longos, as minhas roupas todas feitas à mão, as minhas certezas de que a vida era assim e que para sempre assim seria.

Hoje o sorriso já não é tão destemido. A vida foi transformando a menina, a morte foi bruta e retirou-lhe o prazer de desconhecer.

Vou pendurar em casa fotos desse sorriso de criança para que não me esqueça de quem ainda sou. Para que essa menina viva dentro de mim até ao fim. Quero trazê-la de volta.

Já passei por três mortes bruscas. Pessoas que me eram tudo que se foram de um dia para o outro. Hoje são muito poucas as que me prendem à vida, as que dão sentido ao estar aqui. E uma delas foi violentada. De um momento para o outro a sua vida mudou. E eu não sei como conseguirei recuperar a criança em mim, mas vou ter de o conseguir.

heranças



Tantas mulheres namorei
que nem sei a conta delas
mas na que sempre pensei
tinha umas certas mazelas

A segunda era um camafeu
gostava tanto de mim
dizia-me tu és meu
o meu amor já tem fim

A terceira era fadista
mas não sabia cantar
entortava muito a vista
quando estava a barrigar

A quarta era uma vaidosa
mas não sabia lavar
a carinha cor-de-rosa
muito suja até fartar

A quinta era um amor
que não fugia a vil sorte
até metia um horror
a própria face da morte

Para acabar a relação
desta linda que eu fiz
peço a todas perdão
e vou fugir para Paris
Contou-mo a minha avó materna este fim-de-semana. Aos 79 anos, recita-o de uma ponta a outra com o mesmo sorriso matreiro com que de certo o ouviu pela primeira vez, aos 14.

novos sacos



Gosto tanto deles como desta altura do ano, que me faz lembrar o conforto dos serões à lareira na casa onde cresci, no meio de avós e bisavós que com tanto gosto, uma após outra vez, me mostraram os primeiros passos daquilo que acabei por, muito mais tarde, vir a fazer.


Camisolas para levar para a escola, gorros para as férias na terra do avô, mantas e tapetes, casas de bonecas com móveis de quarto, sala de jantar e de sala de estar, paredes forradas a papel, alcatifa no chão - tudo feito à mão, com tanto gosto, com tanto tempo.


Acho que são eles as minhas maiores influências e são a sua bondade, criatividade e dedicação que tento alcançar, para que o M. os sinta através de mim e com eles todo o bem que me fizeram. E só agora o percebi.


Eu só ia apresentar os novos sacos... Perdoem-me os devaneios.


Amanhã será a vez deste menino.

contar carneirinhos




Um dos meus sonhos de criança era ser pastora... Ficou-me das férias passadas em Mangualde, na casa da família do meu avô. O frio da noite, a lareira acesa o dia todo, as panelas robustas sempre com água a ferver... e as ovelhas a pastar na manhã fresca. Aquela liberdade ficou-me cá dentro e tem vindo a tomar vida própria. E quanto mais tento não lhe dar ouvidos, mais ela grita.

Ontem à noite nasceu um carneirinho. Se calhar, o primeiro de todo um rebanho.
Este, vai para a loja.

móveis móveis ou a dança dos móveis

Cama nova para o quarto do M.
Estante da sala volta para o quarto do M.
Estante do quarto do M. vai para o escritório.
Estante do escritório vai para a sala.
Escrivaninha nova para a sala. Mesa do hall para a sala.
Mesa da sala para o hall.
Mesinha da sala para o quarto do M.
Mesa de cabeceira do quarto do M. para o escritório.


Tinha escrito uma longa história sobre a nossa odisseia dos últimos dias mas tive pena de quem pudesse vir a ler... Isto tudo para dizer que só me apetece limpar, limpar, limpar...

10



Cedo tive que procurar um lugar para mim no mundo. Sem um pingo de medo, enfrentei os caminhos mais difíceis. O medo, vim a senti-lo só quando percebi que poderia ter-me enganado no caminho e que era possível ter que voltar atrás.
Assim que tomei a decisão de regressar, senti que algo caía no seu lugar. Estava certa. Não havia dúvida alguma dentro de mim.
Casa às costas, despedidas, a vertigem de um novo começo.
E tudo foi acontecendo tal como se tivesse sido previsto, todas as peças foram caindo no sítio certo, todo o emaranhado de situações sem nexo para mim foi se dissipando até começar a ver chão seguro, a reconhecer-me dentro da minha própria vida.
Durante toda esta viagem, houve uma pessoa que nunca deixou de me dar a mão. Apareceu vindo do outro lado do mundo e nunca mais me largou. Passá-mos os dois na mesma rua, no mesmo instante, olhá-mo-nos sem saber porquê e ainda hoje estamos juntos. Somos quase opostos um do outro, esforço-me por encontrar pontos em comum e no entanto parece que servimos um propósito acima de nós, ilustres sacrifícios em honra de deuses sedentos de sangue e vida, que nos vão usando em prol das suas vontades.

Por tudo o que já passámos e por ainda aqui estarmos, por tudo o que já construímos e por tudo o que ainda temos a aprender:

Parabéns a nós os dois, pelos 10 anos de casados.

Gata borralheira



Hoje vi uma senhora. Olhei para ela e não consegui deixar de a olhar. Estava à espera de pagar, tal como eu. Era pequena, metro e meio, roliça. E não é que trazia a carteira encostada ao peito e a argola da chave enfiada no dedo como que se morasse ali pertinho e fosse à loja num instantinho...! E quanto mais se apercebia que a fila não andava mais apertava a carteira contra o peito e até a embalava, a jeito de consolo, talvez. A chave dava uma volta ao dedo, duas e eu a vê-la. Talvez tivesse comida ao lume.