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acreditar

Na escola, tentam convencer-me a baptizar o M. para que ele venha a fazer a primeira comunhão.
Eu sou baptizada e fiz a primeira comunhão, como a maioria das pessoas da minha idade. Porque era costume, fazia parte do viver em sociedade que se diz católica. Se bem me lembro, nunca gostei de ir à catequese e inventava sempre alguma artimanha para faltar - até que fui descoberta e tive que voltar. Mas não por muito tempo.
Eu pensei que a sociedade tinha mudado um pouco, arejado um pouco, que se tinha decidido a parar de fazer só para parecer. Mas parece que me enganei, ainda há muita gente a baptizar os filhos só porque assim tem sido - e outros porque acreditam no que estão a fazer, que muito respeito.

Ao telefone, a catequista tentou convencer-me a tudo.  
Segundo ela, sem uma religião em que acreditar sentimo-nos perdidos nas aflições da vida e podemos cair em maus caminhos. Com respeito à senhora, não me ri -  mas respondi.

O acreditar é uma força que existe em nós, muito antes da religião aparecer. Compete-me a mim, como mãe, ajudar o meu filho a descobrir essa força que nasceu com ele e dar-lhe bons exemplos, nos bons e maus momentos da vida, agarrando-me também eu à força. E como o faço!
Sinceramente, não acredito que a fé tenha que estar ligada a uma religião e que é a religião que promove a fé!

Se um dia o meu filho se interessar pela religião, é sinal que pensa, que é inteligente. Por enquanto, se eu o fizesse baptizar contra sua vontade, seria hipócrita e pequena, muito pobre no acreditar.

Acreditar é a minha força e é ela que me mantém em pé. Se assim não fosse já tinha desistido de muito.

Só tenho pena que a senhora catequista tenha me tentado convencer. É mau sinal.

mais uma lebre





Ando a pôr as encomendas em dia.
A escola começou e o M. já não é o mesmo. Emoções descontroladas, fadiga visível nos olhos cansados e palavras agitadas. Levou mais de uma hora até finalmente adormecer.
Quero muito conseguir manter a naturalidade do dia-a-dia - organizado mas humano. Nós não somos máquinas.

à procura do caminho

* Maria Keil



Eu vejo que anda cansado, desmotivado, parece-me triste. Vejo com olhos de mãe. Acho que mais ninguém vê o que vejo quando olho para ele, ninguém sente no sangue aquilo que o meu filho está a sentir. Antes que ele se perceba, já eu vi tudo.

Mas afasto os pensamentos. Não é assim tão grave. É normal. Ele até tem uma vida priveligiada em relação à maioria das crianças de hoje.

Está cansado. "Não me apetecia nada ir para a escola hoje... queria tanto ficar em casa." Digo-lhe que não pode ser. Penso que até podia. "Mentirosa", digo a mim própria.

São muitas as vezes que me diz que não gosta da escola. E quando o diz, sinto a sua tristeza, a sua alma vazia. Dói. Depois lá vem o dia em que o vou buscar e pede-me para ficar a brincar um pouco mais e o meu medo arrefece, fico mais descansada, afinal era coisa de miúdos.

Em casa, o ritual de sempre, nunca temos o tempo que era de esperar - dadas as circunstâncias. As circunstâncias que todos pensam saber e sobre as quais gostam de opinar. As circunstâncias tão priveligiadas para uns, tão assim-é-que-deve-ser para outros. Porque o privilégio de o meu filho vir almoçar a casa e às cinco e meia já estar de volta é o mínimo que eu lhe posso/devo dar, no meio de toda esta paranóia actual a que se chama normalidade. Sim, eu protejo o meu filho. E não, não sou a mãe perfeita, muito longe disso.

Continuo a achar os trabalhos de casa, depois de oito horas de trabalho, um exagero. Ele é esperto, faz tudo com uma perna às costas. Mas a vontade... a motivação... Essas competem-me a mim reinventar, não me parece que a escola as ache importantes.

Ainda não agradeci à professora o cartão que recebi no dia da mãe. Não sei bem como lhe dizer o bonito que estava a sua caligrafia, o seu coração recortado e o seu lindo texto. E agradecer o facto de ter deixado o meu filho copiar as suas palavras e enrolar os papelinhos. O M. deu-mo logo de manhã, o começo de um dia perfeito, devo dizer, explicando-me que foi a professora que fez aquilo, aquilo e aquilo. E que o texto foi mandado copiar, todos escreveram o mesmo.
A ver se não me esqueço de agradecer também a linda coroa de cartolina que veio para casa na Páscoa, onde o meu filho de seis anos e meio colou algodão no corpo da ovelhinha.... Podia jurar que foi buscar a ideia à sala da pré-escola.

Ainda na última reunião tinha dado a entender à professora que os trabalhos manuais fazem falta e deviam ser parte integrante do horário escolar, ao qual respondeu que isso já fazia parte das suas aulas e que os meninos faziam muita coisa... Sim, fazem desenhos de vez em quando. Sim, fazem o suposto presente naquelas datas. Onde estão os verdadeiros trabalhos?

Hoje, para além dos t.p.c., tinha que escrever várias vezes uma palavra que falhara no ditado. Em vez de duas linhas, escreveu uma linha. Achei suficiente para aprender a palavra. Vendo toda aquela desmotivação, olhando para um filho que tem tudo para ser brilhante e vendo-o triste, perguntei: " - Gostavas mais se a mãe fosse tua professora cá em casa, em vez de ires para a escola?" E nesse momento, os olhos dele brilharam como há muito eu não via, ficaram enormes, todo ele se iluminou. "- E podes?!"

Logo a seguir perguntou-me se podia fazer um ditado. Depressa o cansaço desapareceu e toda a sua força de leão veio ao de cima. Apanhei um livro dos meus, ditei duas frases, ele escreveu. Dei-lhe a ideia de ser ele próprio a verificar os erros e não eu. De seguida, pegou ele no livro, ditou-me duas frases, eu escrevi-as e ele, deliciado, corrigiu-as.

Acho que preciso de ajuda.

destes dias







Está desde sexta-feira com febre.

Chegou da escola, a tremer, já com uma dose de ben-u-ron. A tremer. E eu continuo sem perceber porque é que, mesmo sabendo que febres há muitas, não são capazes de pegar no telefone e avisar que a criança está doente. Ao que parece, uma dose de ben-u-ron seguida de mais uma de brufen e os meninos ficam operacionais até à hora de saída, que é isso que interessa.

Pois caras senhoras, o meu filho é para ser ouvido e o dinheiro que todos os meses aí deixo deve dar para umas poucas chamadas telefónicas.

Agora dorme, encostado ao pai. Se ainda não o tiver derrubado da cama.
Quanto a mim, tenho quatro dias de ideias por concretizar dentro de mim.

da Holanda




A vida é de facto engraçada, quando a olhamos na cara e lhe percebemos o olhar. Ao ver-me confrontada com um tipo de ensino que nem lembrava existir, começo a procurar alternativas sensatas e a tentar saber tudo sobre o assunto, no meu país e fora dele.


Por lá ter vivido vários anos e por me ser muito familiar, volto a olhar a Holanda com outros olhos, olhos de quem de lá já saiu e não precisa voltar, de quem com a experiência aprendeu muito, acima de tudo.


Lá há muitas escolas alternativas. Desde há muito tempo. Escolhi uma como local de estágio enquanto tirava o curso para professora de artes plásticas, pela faculdade de belas artes de Amesterdão. Impressionou-me a independência dos pequenos alunos, a sua autonomia, a imaginação e acima de tudo, o valor que se dava a tudo isso. As aulas que assisti eram de trabalhos manuais e deviam ser, por isso, das mais divertidas - mas no meio de toda aquela festa de liberdade da imaginação e técnica havia uma grande ordem, subtil, mas estava lá. O professor pertencia aos alunos, eram todos um. E as crianças, as mais independentes e satisfeitas que já vi.


Pouco tempo depois voltei para Portugal, não terminando o curso que tanto prazer me daria terminar e que tanta falta me faz hoje - nunca mais pensando no assunto, até agora.


Embora me pareça que foi tudo um sonho, não foi. Tenho andado à volta dos mesmos assuntos vezes sem conta sem me aperceber que a vida estava atenta, ao contrário de mim.


E se na vida não há caminhos divergentes, acho que tenho andado um pouco adormecida.

Talvez fosse preciso fazer as pazes primeiro.

as crianças estão em vias de extinção


Na grande ânsia de darmos às crianças os recursos para crescerem melhor do que nós, talvez estejamos a "inundá-las" de muitas horas de trabalho e de pouco tempo para brincar. Talvez lhe estejamos a dar muitos mais brinquedos do que nos damos a nós ou lhes trazemos outras pessoas para brincar.
É perigoso que as crianças sejam menos crianças pois, se for assim, nós estaremos a ficar menos desarrumados por dentro e, com isso, estaremos mais doentes. Porque aquilo a que chamamos criança representa, tão-só, a saúde humana: a curiosidade com que se vence o medo, a alegria e o júbilo, a capacidade de brincar, a ousadia de imaginar, a confiança e o amor, e a esperança. (...)
Todo este clima "inflamado" que envolve as crianças, diz-se, tem por finalidade levá-las a ter quatros e cincos, mesmo que se hipoteque a sua autonomia com explicações para quase tudo. É sabido que uma criança que cresce com médias entre dezasseis e dezanove valores, viverá feliz para sempre... Continuará a ter quatros e cincos pela vida fora, na sua vida profissional, na sua vida social, nas suas paixões, ou nos seus desempenhos futuros de pai ou de mãe...

in A vida não se aprende nos livros - Um grande amor nunca se trata com cuidado, Eduardo Sá


Hoje consegui falar finalmente com a professora do M. Disse-lhe que acho o volume dos trabalhos de casa exagerado, não deixando tempo livre para descansar e brincar após um dia inteiro na escola. Disse-lhe que é desmotivante para uma criança como o M., que é muito curioso e inteligente, deparar-se com folhas A4 para preencher com as mesmas letras todos os dias.
Ela percebeu e parece-me que concordou, embora agarrando-se ao "tem que ser"... E depois levou-me sem saber até à minha sala de aula de há tantos anos atrás, dizendo que o M. leva mais trabalhos de casa porque não consegue acabar tudo na aula, porque quer fazer tudo muito perfeito, ao contrário dos seus colegas que inventam artimanhas para se despacharem mais depressa, ora desenhando letras maiores, ora deixando grandes espaços entre elas, etc.
E assim, o aluno mais interessado e exigente consigo próprio é premiado com trabalhos de casa a que os outros, que levam tudo a brincar, não têm direito.
Estarei eu a dramatizar? Ou estará o mundo mesmo ao contrário?

do paraíso perdido



A experiência da infância persegue as pessoas inteligentes ao longo das suas vidas. Elas têm o desejo de a recuperar - a mesma inocência, o mesmo deslumbramento, a mesma beleza. (...)
Não é por coincidência que todas as religiões do mundo retêm em parábolas a ideia de que o Homem viveu em tempos no paraíso e, por qualquer motivo, foi expulso de lá.(...)
A procura do paraíso é a procura da nossa infância.(...)
Embora a sociedade destrua a inteligência, não o pode fazer totalmente; ela limita-se a encobri-la com muitas camadas de informação. (...)


(...) A aprendizagem não equivale a ter conhecimentos. A aprendizagem passou a ser demasiado identificada com o ter conhecimentos, mas é o oposto disso. Quanto mais conhecimentos uma pessoa tem, menos capaz é de aprender. Daí as crianças serem mais capazes de aprender do que os adultos. E se os adultos também quiserem manter a atitude de aprendizagem, têm de continuar a esquecer aquilo que aprenderam. (...)
A aprendizagem só acontece quando há espaço para isso. A criança tem esse espaço. essa inocência. (...) A educação é uma ponte entre a potencialidade e o mundo concreto. A educação existe para nos ajudar a transformarmo-nos naquilo de que somos apenas semente.
(...) O que está a ser feito nas escolas e nas universidades não é educação. Essa educação apenas nos prepara para arranjar um bom emprego, um bom salário: não é educação a sério. Não nos dá vida. Pode dar-nos um melhor nível de vida, mas um melhor nível de vida não é um melhor padrão de vida: as duas expressões não são sinónimas.


in Osho - Uma Visão Revolucionária da Educação Infantil, Ed. Pergaminho

Para os interessados, em especial à Maria, recomendo uma vista de olhos pelos Livros de Osho. Perdoem a minha insistência mas a verdade é que não me canso de os folhear.

não há como ignorar


Segundo dia de trabalhos de casa.

Primeiro dia: entusiasmadíssimo com a novidade. A novidade passa logo quando descobre que tem que desenhar dezenas de iiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii e pintar os bonequinhos cujo nome contenha ii.

Segundo dia: menos entusiasmado. Incrédulo ao perceber que os iiiiiiiiiiiiiii continuam. Estava cansado da escola e sem paciência para repetir a mesma tarefa nada interessante. Chegou a chorar. A mãe, que no primeiro dia estava tão orgulhosa do filho que já trazia trabalhos de casa começa a adivinhar o futuro. Para uma criança que aprendeu a ler e a escrever e a contar até 100 por si só, esta não será uma tarefa fácil. Terei eu que o deixar desaprender para que se adapte?

Nunca levei muito a sério o homeschooling, e continuo a achar que pode ser um pau de dois bicos, mas hoje estou certa que é meu dever encontrar alternativas. E afinal, não sou a única a pensar assim em Portugal.

Finalista de palmo e meio

Sexta-feira foi dia de festa na escola. Ao contrário de todas as outras festas em que tinha que actuar frente a um público, o M. estava bastante entusiasmado. Guardou segredo, não lhe escapou nada do que ia fazer. Vi-o ensaiar sozinho mas de tão rápido que era a esconder os gestos, fiquei na mesma. Tão crescido. E tão independente. Quando aprendeu a andar não deixou que ninguém lhe desse a mão. Queria fazer sozinho. Ainda hoje, nunca quer ajuda. E eu digo-lhe que sou mãe, que ajudá-lo é o meu trabalho. E ele diz-me que não. E tem razão. A galinha tem que levantar as asas, por mais que lhe custe.
Enquanto os seus colegas mostravam ar de criança e não deixavam de ver tudo como uma brincadeira, o meu filho agarrava-se ao seu papel quase profissionalmente. Não deixou escapar o ritmo, não falhou um passo, não teve tempo para sorrisos. Quando acabou, respirou fundo, baixou a cabeça e deve ter pensado: Consegui.

No fim da festa foram chamados a receber um diploma de finalista. Cinco aninhos e já finalista! E o meu filho brilhou tanto quanto o sol, era difícil conter tanta felicidade e orgulho dentro da pele! Tanta satisfação que aquele menino sentiu ao receber o diploma que já há tanto tempo esperava!

Porque não me contaste nada? Podíamos ter partilhado a espera....

Sê criança, filho. Sê, devagarinho. Amo-te mil milhões.

Febre II

Não fui à biblioteca como tinha combinado, não fiz as malas e não fui para Tomar... o M. tem febre outra vez. Cada vez mais sinto que temos que ser nós a procurar informarmo-nos ao máximo e usar sempre do bom senso porque infelizmente o que a maioria dos médicos faz é receitar, receitar, receitar. Se calhar convenceram-se que essa é a sua tarefa. E muitos de nós esquecemo-nos da nossa.
Parece-me que sou a única mãe que acha estranho certas ideias e atitudes correntes e tento nem sempre intervir e deixar acontecer, porque se calhar estou a exagerar ou a querer proteger demais o meu filho. A última notícia da escola que recebi com grandes entusiasmos por parte da escola e de outras mães é que os meninos vão à Marinha Grande na semana que vem, devendo no dia apresentar-se às 7:00 na escola, não sendo esperada a sua chegada antes das 19:00. A minha primeira reação é o silêncio. É o que me acontece quando me sinto chocada. À Marinha Grande? Porquê? Às 7:00 da manhã na escola? Um autocarro cheio de crianças de 5 anos, para lá e para cá... PORQUÊ? Mas não disse nada. Mas como se conseguisse ler os meus pensamentos, a directora da escola, de quem até gosto, apressou-se: "Vai ser giro! Eles adoram!" Pois, mas eu não tenho o costume de colocar o meu filho no mesmo saco dos "eles". O meu sei que não adora. Porque é muito consciente de tudo o que se passa à sua volta e sabe perfeitamente que não é por os outros dizerem que é giro que ele vai achar giro! Mas não disse nada, nem ao M., e na minha maior hipocrisia fiz-lhe um grande sorriso e fingi-me entusiasmada com a visita (de estudo??) para ver qual era realmente a sua opinião. E ele, educado como sempre, continuou o entusiasmo que tinha visto na escola, mas eu senti que não era dele. No dia seguinte, no meio de nada agarrou-se a mim a choramingar: " Eu não quero ir à fábrica! Não gosto de fábricas! Fazem muito barulho!"... De onde é que ele sabe que as fábricas fazem muito barulho não sei mas senti um alívio por ele chegar lá, por ter conseguido limpar tudo o que lhe tentaram fazer acreditar e ter conseguido ouvir-se a si próprio. Aí eu pude dizer para ele não se preocupar que nem a mãe nem o pai o iam obrigar a dar um passeio que ele não queria dar. Mesmo assim, eu, mãe que adora o seu filho mais que tudo, ainda tentei fazer-lhe ver as coisas positivas do tal passeio, mesmo não acreditando em nada do que dizia.... Será a sociabilização mais importante que sermos fieis a nós próprios? Terei eu que ajudar o meu filho a ser fiel a si próprio ou a ser uma pessoa que tem que pertencer a um grupo para não ser marginalizado? É que mesmo na pré-escola existe marginalização, mais grave ainda, são sempre os adultos que ensinam a marginalizar.

Tinha que desabafar.