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os gatos gémeos

os gémeos
os gémeos os gémeos


Estou de volta, com muito trabalho em mãos, muitas ideias em mente, e muita vontade de dar vida a esta minha casa (que também é vossa). 
O que percebi e aceitei é que na minha vida, de momento, não cabe tudo. (Haverá vida em que tudo cabe?) Sentia a mente demasiado cheia, como que um quarto demasiado cheio e escuro em que ninguém entrava há muito tempo. Ninguém gosta de ter um quarto morto em casa, certo? Como cheguei a esse ponto, não sei, mas tenho a certeza que não sou a única a senti-lo. Talvez sejam os 40 a aproximar-se (entretanto fiz 39!). Senti que a bagagem que tinha às costas era demasiado pesada para aquilo que ainda quero caminhar. E que dessa bagagem, o que realmente preciso é muito pouco. Tenho me obrigado a desfazer de coisas de que não preciso, o que não é fácil para mim, que sou coleccionadora por natureza. Mas no fim, sabe mesmo bem perceber que conseguimos perfeitamente viver sem aquele casaco ou aquele vaso, que a culpa é uma invenção do ser humano e que se a superarmos crescemos e fazemos espaço na casa, na vida e mais importante ainda - em nós. 

Percebi e aceitei também que tenho que relaxar mais. Os meus dias, por incrível que pareça a muitos (até a mim!), são passados a correr desde que me levanto até que desmaio na cama. E isto, quase sempre dentro de casa (que não é grande). E isso é ridículo, não o aceito, não o quero na minha vida. Quero ter tempo para trabalhar, para ler, para brincar com os meus filhos, para caminhar, para ver bons filmes, para desenhar, para descobrir. E vou consegui-lo. Se os meus dias são mais frutíferos por andar a correr? Nem por sombras. 

Há que adoptar rotinas que me ajudem a criar novos hábitos. Para começar, vou voltar a partilhar um pouco dos meus dias por aqui, que gosto tanto de o fazer e vou voltar a acompanhar os dias de quem tanto gosto de ler. É algo que me faz feliz. Sem dúvida alguma, algo para manter.


os gémeos


Assim que nasceram, os gatos gémeos voaram para o Texas, onde tenho a certeza que serão felizes. Mandem notícias!

(re)organizar(-me)

casa casa

Um dia voltarei a ter mais tempo para este meu espaço que criei. Em breve, espero, organizarei o meu dia de forma a conseguir chegar a uma rotina de trabalho metódica, sã, frutífera. Já não sou a pessoa que começou este blogue há oito anos atrás por isso não desejo voltar aos meus dias de então (insistir no impossível é sempre luta perdida). Quero, sim, ser a pessoa que hoje sou, com a família que hoje tenho, arcando com todas as responsabilidades que escolhi para mim, com tempo e espaço para aprender e fazer mais e mais no meu campo de trabalho. 
Campo de trabalho é, descobri-o agora mesmo, uma expressão bonita e reflecte muito bem aquilo que encontrei naquilo que faço. Transformar matéria prima em algo novo, tridimensional, prático e útil, "humanizar" matéria prima é um campo tão vasto quanto a vida e dá-me espaço para ser quem sou, para alargar os meus horizontes, para crescer e me descobrir. É isso que gosto tanto no meu trabalho. É um campo infinito, para toda a vida, maravilhoso. Não deixa, que fique claro, de ser trabalho. Só eu sei (e quem faz o mesmo que eu também o sabe) o trabalho que isto dá, as horas que isto leva, os olhos que isto gasta (e as costas!). Mas a verdade é que quem corre por gosto não cansa e nunca, desde que deixei de trabalhar para outros e de ser só mais um número, nunca mais acordei de manhã a pensar na chatice que era ter que trabalhar. Em oito anos, o trabalho faz-me levantar da cama entusiasmada e cheia de vontade de pôr as mãos na massa. E eu sei a sorte que tenho.

Tenho umas encomendas por terminar que serão as últimas por algum tempo. O vosso apoio tem sido como que as asas que me ensinam a voar mas eu vou ter que abrandar. Vou tirar um tempo para me organizar (quem lê este blogue há algum tempo já está familiarizado com esta frase), a mim, à casa, à família e ao meu campo de trabalho. Quero pôr em prática umas ideias que tenho e para tal vou precisar de tempo, de espaço e de rotina de trabalho. 

Nessa rotina, quero incluir também a minha dedicação a este espaço virtual, que embora não seja a vida real eu gosto de ver como um grande espelho da realidade actual. Este espaço tem sido sempre um lugar honesto, onde a vida se mostra como eu a vejo e assim quero que continue. Enviar mensagens em garrafas e lançá-las ao mar, à sorte, é um acto de amor, de esperança, de confiança. E é assim que eu sou.


dias

dias dias

Os dias passam, eu passo, a vida passa. E eu quero agarrá-la, mostrar-lhe que sou eu que mando, que uma pessoa não chega à idade adulta para isto mas sinto-me derrotada. A vida é quem manda. As carruagens passam por mim a correr, eu aceno com um sorriso esforçado e volto ao que estava a tentar fazer, seja lá o que isso era. Quando me lembro dou umas palmadinhas no ombro, digo a mim própria que o que faço não é para fracos, tomo um chá preto e volto ao que estava a fazer, seja lá o que isso era.
Na agenda, ainda a do ano que já passou, anoto projectos, listas de afazeres, encomendas que vão chegando. São os meus segundos de mulher empresária. Gosto. Mais uma palmadinha no ombro, o tempo é sábio, a altura vai chegar e volto ao que estava a fazer, seja lá o que isso era.

E é isto que vim cá fazer, desabafar um bocadinho e ver se retomo o ritmo, que tudo isto me faz falta e me faz feliz e já vou a sentir-me um bocadinho melhor.

simples?

Fiquei a pensar no último post e nos vossos comentários. 
É verdade que me sinto muito cansada mas não sei se será justo atribuir a culpa aos filhos. Como todos os filhos, eles dão trabalho, requerem atenção, precisam do tempo que era meu e já não é, não me deixam dormir uma noite inteira do princípio ao fim. Mas essa é a minha escolha, a minha opção de vida e todos os dias, no auge do cansaço, pergunto a mim mesma se é isto que realmente quero e a resposta é sempre sim.
Como disse a Naná na página dos comentários, esse ritmo calmo e sem stress é sobretudo um estado de espírito. E é aí que eu tento me focar. Como trazer esse ritmo para dentro de mim quando tenho filhos a querer comer e eu ainda sem saber o que fazer para o jantar, quando quero sair de casa rapidamente e percebo que tenho uma fralda para mudar, quando tenho um pré-adolescente e uma bebé a chamar por mim ao mesmo tempo em camas diferentes e eu cheia de sono e as encomendas à espera e a louça por lavar? Porque não posso nem quero sentir-me em paz apenas quando estou sozinha em casa a trabalhar. Quero andar com essa paz dentro de mim, sempre.

Portanto, que me perdoem os filhos, os meus e os vossos, mas um desabafo de mãe de vez em quando não faz mal, é natural e recomenda-se até. Agora, o que ando a tentar aprender é como trazer esse ritmo calmo para dentro de uma vida que, mesmo simplificada como a minha, não é simplesmente simples.


amêndoas

amêndoas amêndoas

Descobrimos umas amendoeiras perto de casa. Perto delas existe uma horta. A horta é lugar sagrado. É lugar passado. Toda a horta me faz sonhar. Toda a horta me faz chorar.

Um dia voltaremos a ter uma horta e tudo nela se multiplicará até ao céu. E do fruto do nosso trabalho lembraremos a nossa avó como quem continua uma história que nunca poderá acabar. 

Há histórias que não conhecem princípio nem fim. O tempo baralha-se pela memória adentro e nós fazemos dele o que queremos. A realidade não é nada - a nossa memória é tudo.

o post que surge sempre pela altura dos saldos

Sempre que vou a um centro comercial venho para casa com um sentimento estranho. Volto cansada e desanimada. É daquelas coisas que eu sei que devia evitar - e evito - e que vão totalmente contra aquilo que sou. 
Mesmo para uma pessoa como eu, que não se deslumbra com esse mundo comercial, é muito fácil deixar-se envolver com tanta coisa para ver. A oferta é enorme. São muitas lojas, umas a seguir às outras - é casa sim, casa sim, casa sim, casa sim. Cansa. Quando damos por isso já se passaram umas horas e ainda estamos a andar. As lojas são na maioria das vezes armazéns de mercadoria feita à pressa com materiais de má qualidade feitas longe por pessoas cuja história nunca vamos conhecer. Quando pego numa peça penso sempre em quem terá feito aquilo, em que condições e a que preço. Terá filhos em casa, na escola, será homem ou mulher, novo ou velho? Acabará ele ou ela o seu dia de trabalho satisfeito ou resignado com a vida que tem? A história que a peça me conta nunca é muito bonita. Terei eu que comprar algo que me diz que não é feliz? Serei eu feliz ao usar aquilo no meu corpo? 
Outra coisa que me chateia muito é o espaço interior das lojas que anda a encolher. Ou os corredores estão cada vez mais apertados ou eu estou mais larga. O espaço que há para eu passar diz-me que eu não sou bem-vinda, pelo menos por muito tempo. E o meu bebé muito menos - o carrinho não passa! (Por outro lado, constato que muitas lojas de rua cuja secção de criança fica no primeiro andar não tem rampa, escada rolante ou elevador para lá chegar com carrinho de bebé!).

Ao contrário das visitas semanais aos meus blogs preferidos que me deixam inspirada e com vontade de fazer mais e melhor, de crescer como ser humano e de mudar o mundo, estas visitas esporádicas a estes locais de consumo puro e duro deixam-me vazia por dentro, com a nítida sensação de que não é isto que quero para a minha vida.

Um dia destes terei o prazer de vestir apenas roupa feita para mim.

Lost in Living




Eu não falo mais sobre isto, aqui no blog e fora dele, porque não me parece um tema interessante para a maioria das pessoas (dentro e fora de blogs). Quem quer saber se tenho ou não tempo para o meu trabalho? ( "Qual trabalho? Fazer bonecos?" )

A minha avó dizia que certas mulheres não deviam constituir família. E ela, que adorava a família que constituiu, sabia muito bem o que dizia. Ela sabia que tinha ficado para trás, que não chegava nem a metade daquilo que era suposto ser e que, no fundo, ninguém a conhecia. Ela era grande, enorme, não cabia dentro de si. Mas teve filhos, teve marido, teve noites em que costurava e embalava choros de criança, teve que dizer não a muita coisa que só queria dizer sim. Viveu a vida dentro do mundo que construiu, um mundo à sua imagem, amplo o suficiente para que não asfixiasse. Aquilo que conseguiu fazer foi muito, mas muito pouco para o tamanho da sua alma.

Há dias em que me sinto tão grande dentro de mim que quero sair, preciso sair, tenho de sair. Que se tivesse que assinar o meu nome ele teria metros de altura. E é dessa necessidade (de criar) que falo quando me queixo da falta de tempo. É uma questão de vida ou morte -  a da alma! Não é uma vontade de fazer umas costurazinhas; é uma necessidade de ultrapassar, de aprender, de pôr em prática, de conquistar, de construir! A máquina de costura é apenas uma ferramenta, ela não é importante. É o trabalhar as ideias e transformá-las, ver uma ideia ganhar corpo, sentir-me pequena perante uma criação da qual fui meramente participante, esvaziar esta bolha gigante que vai sufocando por dentro até rebentar. Não sei bem como me fazer entender mas tenho a certeza que há muitas mulheres que sentem o mesmo por aí.

Se o meu trabalho reflecte isto? Não. Os bonecos que tenho em mente ainda não foram feitos e não sei quando terei tempo para os fazer. Mas os que faço vão-me ensinando a chegar lá um dia. Pelo menos assim o espero. Mesmo que mais ninguém se interesse. E fazer estes bonecos faz-me bem - não sei se à cabeça, ao coração, à alma ou a tudo que sou -, faz-me verdadeiramente feliz e satisfeita. A bolha gigantesca acalma-se e dá-me uma palmadinha nas costas. Sorrimos as duas.

Mas se tenho dois filhos é porque decidi ter dois filhos e mesmo que me roubem todo o tempo que de outra forma teria para trabalhar, estes dois filhos não podem ser responsáveis pela minha frustação. Mesmo que me sinta a rebentar eu tenho que respirar fundo e sentir-me grata pela sorte que é ter dois filhos como os meus. Basta olhar para as suas caras, os seus sorrisos tão puros e pensar que a vida é um mistério, que não sei quanto tempo por cá andarei, pior ainda - pesadelo dos pesadelos - quanto tempo eles por cá andarão, que essa ansiedade se vai acalmando, pelo menos por mais um dia, porque a minha vida já não é só minha.

Os dias são inglórios? Sim. São passados em pijama? Sim. Estou de bolsos vazios? Sim. Mas por agora, pelo que sei e pelo que já vivi, não troco esta forma de vida por nenhuma outra.

Estou a crescer.

apanhar ar no Museu do Brinquedo

Museu do Brinquedo de Sintra

Museu do Brinquedo de Sintra

Museu do Brinquedo de Sintra

Uma visita ao Museu do Brinquedo traz sempre um pouco de ar fresco, sobretudo quando já nos sentimos desiludidos com esta moda do "feito à mão", moda essa que, quanto a mim, acabará mais cedo do que se pensa exactamente por se ter tornado moda.
Fico triste com todo o desrespeito que vejo por aí e só espero que os verdadeiros artesãos não venham a sofrer demasiado com tudo isto. Espero que seja apenas mais um ciclo que se fecha e que no fim, só quem ama o seu trabalho de verdade fique de pé, a trabalhar, a aprender, a aperfeiçoar a sua arte. E se um dia achava que eram os ditos artesãos que apenas copiam (ou pior ainda, que compram e depois vendem como sendo seu, como tenho visto tantas vezes em feiras de artesanato - ai, as feiras de artesanato deste país!) que acabariam com esta moda, hoje percebo que são as grandes lojas os piores inimigos do artesanato, que parecem ter descoberto a galinha dos ovos de ouro e mandam fazer peças "inspiradas" no feito à mão em fábricas em todo o mundo, a preços incrivelmente baixos, como só elas o conseguem fazer.


Recomedo passagem por aqui:

Uma boneca portuguesa enigmática - no blogue da Mary.
Obsolescência programada - queria partilhar isto aqui já há algum tempo - através do blogue da Alice.

acreditar

Na escola, tentam convencer-me a baptizar o M. para que ele venha a fazer a primeira comunhão.
Eu sou baptizada e fiz a primeira comunhão, como a maioria das pessoas da minha idade. Porque era costume, fazia parte do viver em sociedade que se diz católica. Se bem me lembro, nunca gostei de ir à catequese e inventava sempre alguma artimanha para faltar - até que fui descoberta e tive que voltar. Mas não por muito tempo.
Eu pensei que a sociedade tinha mudado um pouco, arejado um pouco, que se tinha decidido a parar de fazer só para parecer. Mas parece que me enganei, ainda há muita gente a baptizar os filhos só porque assim tem sido - e outros porque acreditam no que estão a fazer, que muito respeito.

Ao telefone, a catequista tentou convencer-me a tudo.  
Segundo ela, sem uma religião em que acreditar sentimo-nos perdidos nas aflições da vida e podemos cair em maus caminhos. Com respeito à senhora, não me ri -  mas respondi.

O acreditar é uma força que existe em nós, muito antes da religião aparecer. Compete-me a mim, como mãe, ajudar o meu filho a descobrir essa força que nasceu com ele e dar-lhe bons exemplos, nos bons e maus momentos da vida, agarrando-me também eu à força. E como o faço!
Sinceramente, não acredito que a fé tenha que estar ligada a uma religião e que é a religião que promove a fé!

Se um dia o meu filho se interessar pela religião, é sinal que pensa, que é inteligente. Por enquanto, se eu o fizesse baptizar contra sua vontade, seria hipócrita e pequena, muito pobre no acreditar.

Acreditar é a minha força e é ela que me mantém em pé. Se assim não fosse já tinha desistido de muito.

Só tenho pena que a senhora catequista tenha me tentado convencer. É mau sinal.

hoje

azul e branco

água mole em pedra dura

dentes e garras de dragão


Nuvens acima de mim, o oceano à minha frente, dentes e garras de dragão à disposição.

Os dias que se seguem não vão ser fáceis mas vamos viver um dia de cada vez, lembrando que a vida é grande e que nós podemos ser tão grandes quanto ela. Um dia de cada vez. E quando olharmos para trás, já passou.

fast fashion

Hoje fui espreitar os saldos. Tortura.
Quando foi que as lojas passaram a apostar na falta de qualidade? As peças, para além de muito mal feitas, com acabamentos que demonstram uma verdadeira falta de respeito pelo consumidor, são fornecidas num material sem qualidade alguma. Os tecidos que vi e senti são de arrepiar, literalmente. E o consumidor não se interessa.
Estou impressionada. A maioria das pessoas anda vestida com tecidos feios, da pior qualidade possível. Mas estão na moda.
Os materiais naturais são cada vez mais difíceis de encontrar. Não encontrei nada - nada - que se revelasse puro algodão. O pouco algodão que por aí anda vem sempre acompanhado de material sintético - o toque não engana. Saberá o consumidor que se veste de plástico? Mesmo que o saiba, não se interessa. Está na moda.
As lojas estão cada vez mais feias. A iluminação é pouca, induzindo em erro, seduzindo o consumidor até à caixa registradora. A roupa é arrastada pelo chão, o chão que já não se limpa quando está sujo porque as clientes já sabem que é assim mesmo.
E porque é que as lojas se renderam à falta de qualidade? Porque o cliente não se importa. O cliente não se importa porque o cliente tem pressa. O cliente tem pressa de acompanhar a moda - ou terá o cliente pressa de consumir?



Boas Festas

Afinal as mães também adoecem.
O cansaço extremo, a anemia e por fim a tosse permitiram-me passar 5 dias numa cama de hospital - pneumonia. Ainda se falou em coisas piores, mas foi só para assustar.
Apesar do azar, tive a sorte de cair nas mãos de uma verdadeira equipa de anjos. Não me lembro de todos os nomes mas nunca esquecerei a humanidade com que me trataram - foram uma família de acolhimento, foram o meu Natal.
Agora estou em casa, a recuperar, a comer e a dormir, a não fazer nada e a pensar em tudo aquilo que quero fazer assim que recuperar forças.
A todos, um Feliz Natal e um Próspero Ano Novo. Que o frio que faz lá fora vos leve ao encontro do calor que faz dentro de cada um de vós.

uma pequena nota

Por aqui, estamos todos a recuperar de um longo e cíclico mal-estar. Neste momento, o filho é quem toma conta dos pais - e as suas festinhas fazem maravilhas.
Espero ainda ter tempo de fazer as últimas prendas de Natal e de enviar alguns postais mas se isso não chegar a acontecer não será grave. Neste momento só quero recuperar as forças que tenho perdido.
Àqueles que começavam a estranhar a ausência, ainda cá estou, mas de molho.
Volto já.

destes dias

Lá fora parece Verão mas por enquanto só lhe vemos as cores.
A manta vai sendo acabada aos poucos, o filho recupera de uma gastroenterite, os dias andam estranhamente longos e fora do ritmo.
Por esta altura era de esperar andar a correr de um lado para o outro, dormir tarde e a más horas mas este ano não me permito isso. Vou andando mais devagar, durmo o que um ser humano deve dormir e faço o que me é possível, com os meus dois braços e duas pernas. Ideias e vontades não me faltam e eu sei que as vou empregar, mais cedo ou mais tarde. Neste momento, essa certeza basta-me.

despojos do dia

"A mulher é a casa", dizia Mia Couto - observação bela e profunda de quem admira as mulheres.
A mulher é a casa. A mulher é a casa do filho, é a casa da família, é a casa dela, acaba por ser a casa da história de qualquer um.
Mas há dias, e eu não sei se Mia Couto sabe disto, em que a mulher se transforma na casa, desaparecendo nela. E por mais anos que passem e experiências que fiquem, a mulher acaba por se deixar desaparecer na casa, na família, na história uma e outra vez.
Trabalhe ela fora ou dentro, a mulher desaparece e passa a ser parte da casa.
Há dias em que não me importo, há dias em que me custa um pouco e há dias em que me custa muito.
Depois da roupa passada a ferro, do almoço feito e da louça já suja outra vez fui-me deitar para, com alguma sorte, dormitar uns minutos. Quando voltei à sala, o cesto da roupa que tinha vencido já lá estava outra vez, com nova roupa para passar. Pareceu-me que se ria de mim. Eu não lhe achei graça e desejei-lhe a morte.

por aqui





Não é só o parto que dói. A maternidade dura para sempre na vida de uma mulher.
Tenho a certeza que nos seus 7 anos já está a entrar na puberdade.
Hoje, de todos os blogs que gosto de ler pela manhã, só este fez sentido. Os outros, de tão perfeitos que querem parecer, deixaram-me ainda mais mal-disposta.

Gosto de alternar bonecos com mantas de retalhos. Assim, quando estou cansada do trabalho minucioso, vou descansar para um trabalho mais livre.

hoje




A máquina saiu do pequeno quarto de costura,
frio e sombrio,
e foi para a sala,
mais quente e cheia de luz.
Reparei que estando longe do computador o trabalho rende mais.
E que a luz natural faz bem,
muito bem.


Depois de um dia inteiro a trabalhar,
para além de um mini-saco
e de umas valentes dores nas costas,
parece
que nada
fiz.


As dores nas costas e os cabelos brancos começam a
desafiar-me.




Há dias em que apetece despir esta pele e começar tudo de novo. Ou será uma etapa da vida?

des cansada


Há muito tempo que um fim-de-semana não me sabia tão bem.

Depois de deixar na Maçã Riscada uns trabalhos prometidos, voltei para casa e deixei-me dormir. Estava à beira do desmaio de sono - conhecem?

Não me lembro da última vez em que não aproveitei o fim-de-semana para trabalhar. Desta vez achei que merecia sentar-me no sofá e ver um filme com a família.
Soube-me a Spa.


sobre trabalhar em casa

Não devo explicações a ninguém, até porque o faço quase todos os dias cá em casa, na esperança de criar um homem de mentalidade aberta e de refrescar a memória de dois adultos, sendo um deles eu própria.


Eu trabalho em casa. E quando digo que trabalho, é porque trabalho. Começo cedo e acabo muito tarde, todos os dias, mesmo aos fins-de-semana e ditas férias. Não me queixo porque gosto mesmo muito do que faço. Faço-o por opção. Por vocação.


Quando torcem o nariz e riem para dentro porque acham que o que faço é um entretém de quem não sabe o que fazer, o meu estômago dá um nó. E, por curioso que seja, essas críticas mudas saem de quem me é mais próximo.


É verdade que não enfrento a IC19 todos os dias, uma vez para cá e outra para lá. É verdade.

É verdade que não preciso tirar o pijama para ir para o trabalho. É verdade.

É verdade que não tenho que aturar colegas nem chefias mal-dispostas. É verdade.


E isso é assim porque todos os dias escolho lutar pela vida que quero ter.


Enquanto estão na IC19, eu já estou a trabalhar.

Quando vão tomar o primeiro café, eu estou a trabalhar.

Quando vão ver os mails e os blogs do dia, eu estou a trabalhar.

Quando pensam que não podem mais, eu penso que não posso mais.

Quando vão almoçar, eu vou almoçar.

Quando voltam ao trabalho, eu já estou a trabalhar.

Quando tomam mais um café, eu ainda estou a trabalhar.

Quando lêem mais uns mails, eu leio uns mails.

Quando finalmente voltam à IC19, eu estou a trabalhar.

Quando chegam a casa, o pessoal cá de casa chega e eu vou trabalhar noutro departamento.

Quando se vão deitar, eu continuo a trabalhar.


E se tenho a sorte (dizem por aí) de poder teimar nesta coisa de ser artesã é porque estou casada com alguém que faz todas essas etapas acima descritas e que paga as contas ao fim do mês.

Porque o que eu ganho, não chega nem para comer. Por enquanto. Porque se teimo em trabalhar tantas horas todos os dias, curvada em frente à máquina de costura é porque tenho muita vontade de um dia conseguir pagar as minhas contas e mostrar ao meu filho que podemos ser tudo o que sentimos necessidade de ser.


Apesar de estar sempre a costurar, o meu tempo quase-livre é preenchido a assegurar que esta família vive num lar decente e que é saudável e feliz q.b.


E por ser mulher e trabalhar em casa sou logo catalogada de dona-de-casa.

Explicar aos senhores dos inquéritos que querem muito saber a minha profissão que ser mulher e trabalhar em casa não implica que passe o dia a limpar o pó (garanto que não o faço - ele vai desaparecendo) é luta quase perdida. Se fosse homem não era preciso explicação alguma porque simplesmente não me catalogavam de dono-de-casa.

E para que não me alongue mais nesta questão, deixo-vos um texto de um artesão a sério, homem, cujo estômago deve estar tão cansado quanto o meu.



E desculpem qualquer coisinha.