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domingo foi dia de carta de amor

meu querido Miguel


Meu querido Miguel, 
cartas de amor são difíceis de escrever. Quando o amor é verdadeiro, como o meu por ti, são quase impossíveis de escrever. Um abraço é fácil. Um abraço grande, quente, demorado, daqueles que te trazem para dentro de mim outra vez. Completos. Inteiros. Mãe e filho.
Fazes onze anos. Onze anos já são uma vida. Já passaste por tanto, já cresceste tanto. E eu só queria que ao crescer continuasses leve, como só as crianças sabem ser. 
Meu querido Miguel, 
cartas de mãe são tão difíceis de escrever. As mães têm tantos medos!
Escrevo-te aquilo que me ouves dizer tantas vezes: que és a pessoa mais especial deste mundo, que é uma honra ter sido escolhida para te dar à luz e para crescer junto de ti, que me ensinas tanto, que quero ser melhor por ti.

És o meu grande amor, meu amor grande, estou a ficar pequena e tu cada vez maior.

O meu amor por ti faz o planeta girar.


mãe

domingo é dia de carta de amor

" E agora estou aqui há alguns meses, não sei se queres que te conte. Era um dia de chuva e a mulher disse 
- Começamos então por aqui. Esta é a sala. Era alta a mulher, digamos um pouco mais alta do que tu. De cima abaixo direita, vestida de escuro. De destino, pensei, vestida de destino, e era razoável pensá-lo. Olhei-lhe o vestido inteiro, não preto, decerto, que era talvez de mais, mas de todo o modo comprometida com o agoiro, fatalidade, coisas assim. E as mãos dadas à frente, com severidade. Equilibrava-me ainda mal nas canadianas, equilibrava-me mal em mim, hei-de explicar-te melhor. 
- Esta é a sala.  
Não havia tempo de a ver bem, mas eu olhei-a com muita intensidade e foi como se a visse bem. Súbito, ela marcou-me desde muito fundo. Não tinha tempo de pensar, ficou-me a imagem para mais tarde. Havia um círculo de gente a toda a roda das paredes - vês? disse a Márcia, companhias não te faltam. Havia gente a toda a volta, mulheres, poucos homens. Instantâneos ao meu olhar, não sei se te explico bem, espectros súbitos, eu via-os. Sentavam-se em cadeiras baixas, cadeiras de rodas, estavam todos muito sossegados, metidos para dentro - que pensais? perguntei-lhes eu também metido para dentro de mim. Possivelmente só eu pensava  que pensavam - que pensais? A mulher de escuro estava à porta à espera que eu não tivesse mais sala para ver. Mas eu tinha, querida. Mesmo a Márcia - não gostas? e eu abanei a cabeça a dizer que sim mas não sabia a quê. Era tudo gente aposentada de ser gente, vivia numa zona intermédia de uma cor de morte mas por empréstimo. E havia ainda um cheiro mole que eu sentia antes de ser também dele e já não sentir. Conto-te tudo isto por miúdos mas não sei se é coisa ainda de entenderes. Por debaixo da minha atenção havia a minha memória impensada de não ser dali, e tudo o que lhe interrompia o discurso interno parava-me o olhar. Mas não sabia olhar nada por sua vez e vinha tudo ao mesmo tempo sobre mim. E mesmo agora que posso e já estou por cima disso, o que me lembra quando lembro é o que primeiro vi. Nós já estamos a sair da sala e eu ainda estou a ver. Curvados amarelos estropiados, o ar taralhouco
- E vamos então ver o quarto
podres esqueléticos, mas não te comovas muito, as caveiras com pressa de serem visíveis, não se mexem, estão quietos na sua invalidez, têm mantas sobre a ossaria dos joelhos, os olhos mortais nas peles encarquilhadas caídos para o chão, que é o chão do seu destino, querida, têm a cor defunta do azeite das lamparinas da igreja.
- E vamos então agora ver o quarto - disse a mulher, muito estatuária.
Mas eu atrapalho-me, depois te conto como foi, eu atrapalho-me ainda com o estupor das canadianas, vou saindo e fico olhando com força até ver bem, uma parada de caveiras a toda a roda da sala e um mau cheiro a corpo, cheio de pressa de apodrecer na sua verdade sem repressão. O corpo. A sua urgência insofrida de se manifestar. Mas também ele nunca existira para mim, quem existia era eu. E era altura de eu te falar do teu corpo, querida, quando também não existia, quero dizer, quando existia mas contigo, com a perfeição de ti que tinha pulso nele. Conto depois."


 Em nome da terra, Vergílio Ferreira



domingo é dia de carta de amor

Há quem as escreva, há quem as receba, há quem as coleccione, há quem as deseje e não as tenha.  
Eu vejo cartas de amor por todo o lado. Acredito que neste mesmo momento, se olhar à sua volta vai encontrar umas quantas - escritas, desenhadas, rabiscadas, fotografadas, sussurradas, caminhadas... Basta ficar atento!

Esta veio até mim como comentário a um post no blog e hoje encontrei-a, guardada numa gaveta virtual.

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"Olá Gininha,

Pareces frágil, és frágil, mas és uma lutadora. Com muitas dúvidas, medos, fraquezas  mas forte.Tenho muito orgulho em ti. Admiro o teu grande amor de mãe. Sei que é daí que tiras a tua força e por ele que tudo fazes. Sei quanto custa. Sei quanto vale a pena. E agradeço a Deus que esse "milagre" tenha acontecido para te recompensar.E com isso ajudar também a que a felicidade do nosso querido menino (que eu também amo mil milhões)seja mais forte. E recompensar também o teu marido (que tanto orgulho sentiu quando tu disseste "O meu marido"). Mas é mesmo assim, o amor, e só o amor, faz sempre milagres, embora leve tempo. Por isso, mesmo cansados, devemos continuar a lutar. Não te esqueças que existem as recaídas,já sabes que sim, o que não quer dizer que o milagre desfez-se, só que somos humanos.O Rob também é um lutador, com os seus defeitos, o seu amor é verdadeiro, talvez até incondicional, como o teu amor de mãe. Por isso também o admiro; não se encontra muito facilmente esse amor de marido. Felizmente que conseguiste encontrar felicidade junto desse amor.Uma mãe nunca deixa de pensar no filho e por isso acaba por se por em último lugar, mas nunca deve esquecer que tem direitos, que o seu filho não lhe tira esses direitos e que todo o amor utilizado na procura da felicidade desse dito filho terá sido em vão e o deixará infinitamente magoado, culpado e infeliz, se ele pensar que "por sua causa",a mãe não viveu a vida que queria. Concordo com o que ouvi uma vez: uma mãe infeliz não serve de nada a um filho. É essa a grande missão dos pais: ensinar os filhos a serem felizes. Todo o amor, a educação, os cuidados, o esforço, o carinho, deverá ter esse fim. A felicidade é uma coisa simples, a sociedade é que a transformou numa coisa inalcansável, ou de objectivos falsos. A nossa felicidade não pode depender dos outros, seja visto de que prisma for. A felicidade está em saber aproveitar os outros enquanto eles simplesmente nos acompaham ao longo da nossa caminhada, dando-lhes o nosso amor ( na prática e como eles precisarem) e recebendo o amor deles, com alegria, intensamente e agradecidamente. Que consigas fazer essa caminhada!

É o meu sincero desejo, eu que tanta dificuldade tenho em fazer a minha caminhada, eu que nunca deixo de pensar em ti, mesmo nos intervalos dos encontros, eu que também te amo muito, embora muitas vezes não te tenha dado esse amor e até tenha parecido que não o sentia.

Obrigada pelo teu amor, por mim e por nós todos.
Parabéns também pelo teu blogue e pelos teus trabalhos.
Que os deuses protejam sempre a minha querida sobrinha,a primeira, a minha afilhada, que ía sempre me acordar, pela mão do avô Zé."




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Museu Condes Castro Guimarães
(D. Isabel, condessa de Subserra e filha, Maria Mância por Domenico Pellegrini )