Decidi parar de trabalhar por uns tempos para conseguir me ouvir novamente. Quando escolhemos trabalhar em casa, a fazer o que mais gostamos e para estar mais próximo dos filhos não imaginamos que podemos repetir os mesmos passos que nos fizeram sofrer ao trabalhar fora de casa. Eu cheguei a um ponto em que trabalhar em casa era não ter tempo para mim, nem para a casa nem, mais importante ainda, para os filhos. Quase todos os dias me apanhava a dizer "agora não posso, tenho trabalho à espera". Mas desta vez, ao contrário daquele tempo em que tinha um salário que me reconfortava a vida ao fim do mês, nem era o dinheiro que ditava porque esse, sejamos honestos, é muito pouco para quem trabalha com as mãos. Era o meu senso de dever, de responsabilidade que me chamava e me dizia que aquilo era mais urgente que as necessidades dos meus filhos.
A vida não estava a correr bem e eu sabia-o. Eu já não me sentia no caminho certo e estava consciente disso. Por isso decidi tirar um tempo, talvez um ano, para me reencontrar. A falta de paciência, o corpo sem energia, as horas a correr mais que eu - esses eram sinais suficientes de que eu tinha entrado num atalho errado e como mãe, chefe de família (a maioria das mães é chefe de família) estava a levar todos comigo para o mesmo lugar.
Custou-me admitir que se calhar era melhor parar. Como não podia parar de ser mãe, decidi parar a outra parte. Viver em frustração constante e ver os filhos a copiar hábitos de que não me orgulho nada não pode ser opção de vida - e responsabilizar a vida pelos meus dias também não.
Parei. E agora? Tinha parado mas não sabia por onde começar, a que me agarrar. Sabia que haviam respostas à minha espera, sabia que muitas pessoas poderiam me ajudar porque também elas tinham passado pelo mesmo mas não sabia como chegar a tudo. Estava em crise. Não conseguia dormir, sabendo que o caminho estava ali à minha frente e eu não o via, tudo ali tão perto e eu cega. Os dias foram passando. O meu ritmo foi acalmando. Consegui voltar a me ouvir melhor.
No outro dia, na cama, deitando-me tardíssimo quando toda a casa já ia no segundo sono e os primeiros pássaros começavam a cantar (e que lindo soa) agarrei no meu desespero e pedi que alguém me ajudasse, que me enviassem um sinal, que me enviassem alguém, que eu estava desesperada e não sabia o que mudar, como mudar, por onde começar, como começar. Adormeci. Das poucas vezes na vida que fiz isto, algo aconteceu, algo veio até mim, e eu tive a sorte de estar preparada para o receber.
Hoje, passados poucos dias, já não me sinto desesperada. Sinto-me calma, confiante. Sei que tenho muito trabalho pessoal pela frente, sei que vou falhar todos os dias mas que todos os dias vou também conquistar mais um passo, mas o que mais me motiva é este sentimento de estar em crise comigo mesma ter passado. Percebi que somos dotados de um mapa interior que aprendemos a ignorar desde cedo e que se não ouvirmos os seus alertas a bem vamos ter que os ouvir a mal. A nossa intuição, tão desprezada e pouco aproveitada, vai se cansar de nos falar e vai passar a gritar. Ela vai ralhar. Ela vai nos sacudir se for preciso e é capaz que doa. Tudo seria mais fácil com menos ruído de fundo, a ela bastava-lhe sussurrar e nós estaríamos sempre bem acompanhados. Mas infelizmente vivemos rodeados de barulho e são poucos os que se conseguem ouvir.
Conheci a
Ana Thomaz através da
Graça Paz e sinto que, mais uma vez as minhas toscas preces foram ouvidas. Não me alongo mais, apenas peço que vejam o vídeo (este e os outros que encontram no youtube) se vos interessar. A mensagem só terá o efeito que teve em mim se estiverem no lugar em que eu me encontro mas ainda assim, acho que é uma mulher digna de se conhecer e a sua experiência pode ajudar a de muitos de nós. Eu estou-lhe eternamente grata por me ter devolvido aquilo que julgava estar a perder.
Afinal, a crise era apenas o sinal de eu estar a me distanciar demais de mim, nada mais que isso. A crise que sentia estar a viver era o viver dividida. E que alegria saber isso e poder voltar a caminhar, com mais optimismo, mais segurança, mais certeza, mais esperança.