Não me lembro dos últimos dias. Não sei onde estive enquanto os dias se desenrolaram. Mas das noites lembro-me bem. Vi todas as horas passarem. To-das-as-ho-ras. Fui mãe solteira de duas crianças doentes por uma semana e sobrevivi. Sobrevivemos. As febres altas, os pijamas encharcados, os narizes entupidos, a água, a mama, a fralda, o vomitado, o colo, o cocó - parece-me que tudo está a passar, a voltar à maravilhosa normalidade. Ah, a maravilhosa normalidade dos dias perfeitos, aqueles que muitas vezes chamamos de aborrecidos. Quero dias aborrecidos. Tão aborrecidos que não vou saber o que fazer com eles.
Uns dias antes dessa tal virose entrar nesta casa, reciclei umas calças da Maria. Cortei-lhes os pés e fiz uma bainha com um resto de bordado inglês. É receita a repetir.
Nunca o "no poupar é que está o ganho" fez tanto sentido para mim. Ao reciclar roupa, ganho duas vezes: ganho naquela que não deito fora e ganho naquela que não compro. E não tenho que sair de casa!
