Quando viemos ver esta casa pela primeira vez, sentei-me e olhei pela janela. Era uma árvore linda, frondosa. As folhas brilhavam ao sol, cintilantes, cada uma independente da outra. Ouviam-se as folhas ao vento. Aceitei ficar com a casa por causa daquela árvore. Lembrou-me uma outra com que tinha sonhado.
Estava eu deitada em cima de uma mesa, morta, lá fora ouvia os cascos de cavalos na calçada, que me esperavam. Eu abri os olhos, estava sozinha na sala. Olhei em frente, por uma janela sem vidro, era uma casa pobre. E lá fora estava uma árvore. Linda, frondosa. As suas folhas balançavam com a brisa suave e quente e eu senti-me em paz.
Quando a vi, nesta casa, pensei que era aqui que deveria morar e talvez ficar até morrer, como no sonho.
Há uns meses passou por aqui um temporal. O vento foi tanto que a partiu ao meio. Vieram os bombeiros de madrugada retirar o que caiu do meio da estrada. Chamei-a de vitoriosa. Porque apesar de tudo se tinha aguentado em pé. Como as árvores fazem. Morrem de pé.
O Miguel chorou pela árvore e eu também. Os galhos ficaram cinzentos para sempre, até hoje.
Hoje olhámos pela janela e estavam a cortar-lhe os galhos. O Miguel ficou a olhar, preocupado. Quando o fui levar à escola disse-me que quando voltasse queria saber o que lhe tinham feito na sua ausência.
E agora estão lá. A cortar a árvore toda. O barulho da serra ensurdecedora.
Já está. Tombada. A árvore que me trouxe aqui e que ia ficar comigo até à morte.
E o Miguel que está a chegar.